Palha no agulheiro

Seus olhos fatigados das nove horas de trabalho foram agraciados com o contato visual daquela mocinha quase no outro lado do vagão do trem, prestes a descer na estação. Está certo que carecia de instruções básicas sobre sociabilidade em transporte público, mas fez o melhor que podia para enlaçar aquele coração tão somente com os precisos movimentos do globo ocular.

A porta abriu, e antes que pudesse esboçar qualquer movimento para se aproximar dela, se fechou novamente, separando os dois eternamente. “Desiste, ir atrás dela é procurar uma agulha no palheiro”, disse para si mesmo. Mas seu terceiro eu, debochado que é, interferiu na conversa dos dois e soltou um “melhor que procurar uma palha no agulheiro”.

E é isso. Poderia ser pior, tudo pode piorar. Há quem fira a mão, cavando agulhas, em movimentos crescentemente invasivos, para achar uma ridícula palha, que tem tanta utilidade quanto um abacaxi num jogo de futebol. Porque reclamava ele de ter que procurar uma agulha no palheiro?  Desceu na próxima estação e foi atrás daquela moça. O esforço de procurá-la na multidão parecia de bom tamanho. Poderia ser pior, tudo pode piorar. De fato: foi indiciado por assédio.

Inferno de Pársena – capítulo 6 – o lago de fogo

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“Eles já estão aqui”, disse o prefeito ao telefone, com a voz trêmula que lhe era característica antes mesmo de tudo isso acontecer – inclusive indagavam como poderia o povo soberanamente escolher um candidato que exala tamanha fraqueza.

“Podem começar a reunião sem minha presença, logo saio de casa”, respondeu o delegado de polícia notadamente ocupado, ou o ex-delegado, apesar de títulos pouco importarem a essa altura do campeonato.

“Não me refiro a eles”, consertou o prefeito. E não se referia mesmo. Não eram os colegas de reunião que estavam fardados e marchando em derredor da cidade de Pársena, com artilharia pesada e máscaras respiratórias. Não era a doutora psicóloga ou o juiz da circunscrição – que recebera o convite da nova reunião logo pela manhã -, que bloqueava as rodovias e armava arame farpado nas ruas alternativas, com a autorização selada e carimbada do Governo.

O delegado entendeu bem a quem o prefeito se referia. Apressou-se em terminar sua pesquisa, a doutora psicóloga se apressou em arrumar os cabelos irritados para parecer minimamente apresentável, o juiz da circunscrição se apressou em abotoar o paletó com zelo, o assessor do vereador se apressou em escolher o melhor perfume para tentar impressionar a doutora psicóloga, mas logo desistiu pois resolveria o assunto da lascívia pela noite, durante o sono, e o prefeito se apressou em esquentar o cafezinho no porão da sua casa. Somadas outras pressas, não demorou muito para que o cheiro forte do café se confundisse com o cheiro das gentes recém-chegadas ali, no porão do prefeito. Eram autoridades políticas e civis, interessadas em acabar logo com o pesadelo.

O que se via, porém, era um amontoado de nus, despidos de qualquer aprovação moral ou probidade. As semanas que se passaram desde a decretação do estado de calamidade pública foram mais que suficientes para que nenhum presente no porão se eximisse de algum escândalo quanto ao que fazia às escuras nos sonhos, ou de algum trauma sofrido por devassidão alheia. A doutora psicóloga e o assessor do vereador não trocaram olhares sequer uma vez, mas todos sabiam da viciosa indignidade a que ela era submetida. Os botões da roupa do juiz da circunscrição não eram suficientes para tapar suas abominações imaginativas. Se havia algum elefante cor de rosa no cômodo, passou desapercebido.

Mas há de se dar crédito para o esforço coletivo que alimentava a discussão. O prefeito atualizava a todos da presença das Forças Armadas na cidade, trazendo à tona que a famigerada intervenção federal de fato acontecia, e que a única razão de não ter ainda um General na sede do governo é exatamente a mesma que levou o General a entrar na história: o medo do contágio.

O âncora do jornal local até tentou defender o Governo, talvez por ser ele mesmo nascido na Capital, dizendo que as primeiras intenções estatais sempre foram no sentido de ajudar. Não mentia: o Ministério da Saúde de prontidão enviou uma força tarefa de reconhecimento em resposta à primeira carta de clamor enviada pelo prefeito. O tom de camaradagem só começou a mudar quando o Agente Federal responsável por coletar depoimentos dos populares passou a ser tema de fofoca na rua:

“Você viu que o Agente anda sonhando também?”

“Não vi… O que vi foi o padeiro fazendo aquilo com a mãe de novo. Vi de longe, não estava muito lúcida, mas certeza que era ele”.

“Quem sabe você não dá uma espiada no Agente amanhã. Foi bom ver um sonho bonito de novo por aqui”.

Óbvio que o Agente Federal em questão não foi autorizado a sair da cidade, e os outros Agentes foram obrigados a usarem máscaras de respiração e roupas antirradiação para lidarem com uma praga que não conheciam. A precaução só serviu para mostrar não era por contato ou por ar que se dava o contágio: qualquer um que entrasse na cidade se encontrava participante involuntário dos sonhos compartilhados. E não há Ministério da Saúde nem da Defesa nem da Segurança Pública nem de tudo o mais que não adote um tom de urgência em uma situação ímpar como essa. As medidas de cima vinham cada vez mais invasivas, e cada vez mais desprezando as correspondências oficiais do prefeito, até chegar a esse ponto em que homens fardados isolam a cidade e o próprio prefeito se torna apenas mais um número nas contas do Governo.

Por essa razão que no encontro no porão sentia-se o cheiro de paranoia, de vício, de desânimo, de abandono, e também do cafezinho, mas agora quase indetectável. Não pense que o Conselho Final – termo cunhado pelo autor do ensaio original “Inferno de Pársena”, nunca saberemos o nome autointitulado de tal conselho – foi passivo durante todo esse tempo. Discutiram exaustivamente sobre estocagem de comida, sobre campanhas de incentivo a vigílias, sobre tribunais de exceção para julgamento de crimes além-fato, sobre tudo e sobre nada, mas não houveram resultados de grande valia. Quando o tempo do mundo dura um terço a mais, é preciso um terço a mais de poder.

Se se olhasse bem para os olhos da doutora psicóloga, entenderia do que estou falando. Ela chorava sem lágrimas, já não tinha o que chorar. A água racionada em casa só era suficiente para a hidratação minimamente saudável, e os calos nos olhos impediam o choro. Para ela era dispensável uma gota de lágrima no rosto de alguém moído pela culpa de ter contribuído para o apocalipse, talvez fosse ela mesma um dos cavaleiros, quando distribuiu no seu escritório os panfletos milagrosos de Alfredo Manfredinho. Para ela também era dispensável o semblante de desgaste de alguém moído pelo vão esforço de tentar impedir que seu erro se propagasse, ao tentar avisar incansavelmente os parsenienses do perigo que era essa auto-ajuda sonhática, ainda que lhe custasse a dignidade, ao ir aos ridículos programas de televisão. Também era dispensável o sorriso de justiça feita de alguém que matou com as próprias mãos a serpente que oferecera o fruto proibido, de ser como Deus nas noites de sono.

Não havia tribunal que se importasse com as torturas expiatórias que a doutora psicóloga praticava em sonho em Alfredo, de modo que imaginou que não haveriam de se importar se também o fizesse acordada. Na manhã que saiu a notícia do assassinato do guru Alfredo Manfredinho não houve delegado que se importasse para abrir um inquérito, e nem promotor para abrir um processo. Não foi o primeiro caso ignorado, e nem seria o último.

Toda injustiça acumulada, todo crime cometido, toda maldade pensada, seriam punidas. Não pelo juiz de paletó impecavelmente abotoado e nem pela Suprema Corte do país. Mas pelo dedo do General que, de fora da cidade, pressionava o botão com uma frieza calculada e uma sóbria consciência de que aquele ato lhe tiraria muitas noites de sono. Afinal, não é qualquer botão que causa o espalhamento de uma fumaça ardente, “vermelha como o sangue”, escreveu com precisão o autor do “Inferno de Pársena”, que invade cada pulmão, de homens e mulheres, crianças e idosos, criminosos e criminosos. Aquele fôlego de toda a cidade seria o último, arrebatando a vida ao invés de dá-la, em desobediência à natureza. O Governo não haveria mais de temer que a cidade vizinha se contaminasse, nem a cidade vizinha à vizinha. O estranho fenômeno de Pársena foi contido com o pragmatismo da segurança pública, e condenado, sem misericórdia, pelo acidente da justiça.

Inferno de Pársena – capítulo 5 – o inferno

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O delegado da polícia se inclinava sobre a cadeira do escritório e olhava fixamente para a pequena televisão disposta na sua mesa. Seus pensamentos, porém, velejavam por um conturbado mar de inquietações da noite passada, ainda que seus olhos fingissem calma. A voz do apresentador do programa sensacionalista entrava por um ouvido e saía pelo outro, e as chocantes imagens sangrentas e exclusivas de uma briga na rua refletiam em suas pupilas com a indiferença própria da sua profissão. Se ele estivesse prestando o mínimo de atenção, notaria que a reportagem tratava de uma agressão na sua vizinhança, entre seus dois vizinhos da frente, no qual saia um ileso e outro deformado em sangue – nem a própria mãe o reconheceria, mas a autópsia indicaria sem sombra de dúvidas que se tratava do coitado do Mário. Talvez aí então se animaria para ouvir o apresentador informar o motivo da notícia escandalosa: o vizinho agredido havia violentado a mulher do agressor.

Aparentemente apenas mais um dos inúmeros conflitos que o delegado costuma resolver, esse caso foi a primeira gota da tempestade. A gênese do que vem a ser o motivo deste conto. Conforme consta na cópia do boletim de ocorrência recuperado posteriormente pelos pesquisadores do estranho fenômeno de Pársena, o vizinho e sua mulher tiveram, em suas próprias palavras, “exatamente o mesmo sonho”. Não só eles, mas também o morto, confessadamente, segundo o marido e a mulher. Nessa geografia impossível, Mário avançara sobre a esposa alheia, esta paralisada, e também o marido, que nada pôde fazer se não assistir a tudo com ranger nos dentes. Óbvio que na manhã seguinte os dentes trincados não seriam mais os seus, mas os do verdadeiro criminoso, Mário, afundados na mandíbula.

O delegado deixou passar esse registro histórico em tempo real diante dos seus olhos, e só despertou das divagações quando a porta do escritório se abriu abruptamente com a figura de seu inferior atrás, com as mãos ocupadíssimas – e o superlativo parece pouco – com pastas e papéis:

“Senhor… creio que estamos com um problema processual”, disse o inferior, nervosamente.

“As instruções são suficientemente explicativas para qualquer problema”, respondeu o delegado, que tentava em vão fingir que não pulou de susto com o abrir da porta.

“Não desta vez”, retrucou o inferior, também fingindo, em vão, que não vira o seu superior dando um salto na cadeira. Espalhou sobre a mesa alguns dos papéis que carregava e continuou:

“Só pela manhã, quinze cidadãos prestaram queixas sobre diversas violências e agressões, sendo estupro a mais recorrente”. O delegado franziu a testa desconfortável com o número.

“Todas elas”, continuou o inferior, “dizem ter sonhado com isso”. Engasgou no ‘sonhado’, e qualquer um engasgaria, tamanho é o ridículo de levar uma situação dessas para o ocupar o tempo do delegado.

“Só me parece que o índice de loucura tem aumentado”, respondeu o delegado, com um sarcasmo titubeante. “Qual a grande questão? Descarte esses depoimentos, ora!”.

“A grande questão é que impressiona a quantidade de… réus confessos”, disse o inferior, se envergonhando do ‘réu confesso’, mas logo se consolando porque não existe escolha de termos adequada pra uma situação como aquela. “Vários depoimentos afirmam que os agressores, quando questionados pelas vítimas na manhã de hoje, sequer negaram a acusação, e alguns até admitiram. Tem alguma coisa estranha acontecendo, senhor”.

Silêncio.

“Senhor, não sei se sabe do que estou falando, mas quero me desculpar pelo sonho de ontem…”

“Não fale disso!”, interrompeu o delegado, pois sabia que sim, tinha alguma coisa estranha acontecendo. “Continue coletando os depoimentos. Dispensado”.

O delegado agora assumia o papel de inferior, e ligou para seu superior em busca de instruções. Aumentou o policiamento nas ruas e o número de fichas de boletim de ocorrência. Voltou a fixar o olhar para a TV, e a mente para o mar de conturbações. Seria um dos últimos momentos de aparente calma para o delegado. Mal sabia ele que em poucos dias os seus próprios homens na rua que estariam trocando farpas com os cidadãos que invadiam sua privacidade onírica. Mal sabia ele que os juízes se negariam a julgar quaisquer casos baseados em, olha que absurdo, sonhos, e não em fatos reais. E mal sabia ele que seria mais um no enorme coletivo de empregados na cidade que já não se chamam por empregados. Quem aceitaria um racista, ou um estuprador, ou um perturbado qualquer em sua empresa, justificavam os empresários – isso até que seus próprios segredos saíssem das sombras. Aí então não haveria um, naquela pequena cidade de Pársena, que pudesse bater as mãos no peito e dizer “sou um homem justo”.

 

Capítulo 6 “o lago de fogo”: https://tempomanomeu.wordpress.com/2016/08/18/inferno-de-parsena-capitulo-5-o-inferno/ 

Inferno de Pársena – capítulo 4 – o purgatório II

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“Você não acha que é uma decisão precipitada?”, perguntou a terapeuta, quando finalmente Mário teve a decência de tornar público seu desejo de abandonar a terapia. “Faz semanas que você mal abre a boca comigo. Eu diria que você está regredindo, e não que merece alta”.

Óbvio que falava pouco. Não haveria razão para compartilhar que a atração por ela, reprimida desde a primeira vez que entrou no escritório, fora satisfeita algumas dezenas de vezes. Não haveria razão para compartilhar que cedeu à raiva literalmente todas as vezes que sonhava com o chefe, em uma sessão libertadora de espancamento. Se houvesse algo de bom para compartilhar seria o controle da ansiedade que vinha aprendendo: fazia um esforço mental para ignorar qualquer opinião que os outros tivessem sobre ele neste mundo insosso. E se houvesse algo de ruim para compartilhar, e lá no fundo bem que ele queria, seria o estranho episódio da noite passada, em que se encontrou inadvertidamente com os membros paralisados em pleno sonho, quando avançava em cima de uma vizinha.

O susto da inamovibilidade o incomodava em demasia. Tinha por certo que ali no seu mundo o próprio querer era fazer, e o destino de tudo era sujeito à sua soberana vontade. Não existia ali o futuro do pretérito, como em “se eu tivesse asas, voaria”, mas a única conjugação era o pretérito do futuro, que não pode ser expressa por palavras, mas somente pela própria sensação de intentar voar e se perceber, invariavelmente, que de fato voa. Óbvio que mexeria com ele a experiência inédita de ter a vontade de abraçar a vizinha pela cintura interrompida por sabe-se lá o quê. Tomara do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, de fato parecia com Deus, e agora temia ser expulso do jardim.

Mas guardou para si. Poderia, e deveria, compartilhar com a terapeuta, mas não queria correr o risco de, durante essa última sessão, ser convencido a continuar com ela. Não culpava a mulher, afinal, hoje tinha apenas uma pessoa na fila de espera do consultório, quando alguns meses atrás nem se dava ao trabalho de contar de tantas que eram. Mas percebeu que não era nenhuma motivação financeira que levou a doutora a dar um alerta ao final desta última sessão: “cuidado com isso tudo, Mário. Tem algo de muito errado nesse Alfredo e no seu método”.

A suspeita viria a se confirmar alguns dias mais tarde com a aparição da doutora em um programa de entrevista matinal de televisão, acusando Alfredo Manfredinho de irresponsabilidade social e de toda sorte de efeitos colaterais que sua moda do sonho lúcido trazia. Tentava demonstrar os surtos alucinógenos em pleno dia que poderiam vir a acontecer, desmentidos com risos carismáticos da apresentadora. Se debruçava sobre argumentos éticos da gradual falta de empatia que o método cultivava, rejeitados aos bufos pela plateia, e passava a mão nervosamente pelos cabelos ridiculamente assanhados e desgastados, revelando que não era a primeira vez que sofria essa sabatina e nem será a última. Mário desligou a TV para não pensar naquilo tudo.

A semana fora cheia, e é óbvia a maneira que escolhera de descansar a mente. Foram dias de muitos incômodos, muitos questionamentos, muitas ansiedades que pensou já ter superado. Mário havia de batalhar pelo maior dom que recebeu na vida, nas palavras do próprio Alfredo Manfredinho, o sonho. E se aquele episódio da paralisia colocava em risco sua soberania, haveria de corrigir tal absurdo. Sonhou novamente com a vizinha. E sentiu, mais uma vez, a mesma paralisia que o impedia fazer o que bem queria. Mas a vontade é uma guerreira, e num esforço de Golias avançou, a tomou forçosamente pelos braços, e a possuiu da forma mais suja que sua mente poderia conceber. Ali era o seu mundo, e de mais ninguém, e não haveria psicóloga ou tribunal para impedi-lo. Acordou suado.

 

Capítulo 5 “o inferno”: https://tempomanomeu.wordpress.com/2016/08/18/inferno-de-parsena-capitulo-5-o-inferno/ 

Inferno de Pársena – Capítulo 3 – o paraíso

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A humanidade sofre de algumas sérias maldições. Primeiro, precisa manter o terrível hábito diário de se alimentar, sob risco de vida. Segundo, é escrava de uma abstração que chamamos de tempo, mas com efeitos bem concretos quando vemos o primeiro fio de cabelo branco no espelho. Terceiro, é uma sistemática assassina de vontades, sufocando não com as mãos ou com água, mas com o que se diz valores éticos e impossibilidades físicas. Sobre o último, logo na infância o menino constata que independente do esforço mental e da ansiosa vontade, não lhe é dada a capacidade de voar, não decolando um centímetro sequer do chão –  ou se esborrachando, se o menino for mais ousado e idiota.

Isso é o que os 35 anos de vida de Mário o ensinaram. Ao menos nesse mundo. Porque ali, no parapeito do arranha-céu, o protagonista redescobria sua meninice, com um ímpeto de voar que nem mesmo o jovem Dumont sentira sob os firmamentos mineiros. Curioso que em uma pesquisa realizada 20 anos depois com os cidadãos parsenienses, 90,25% teve o voo como uma das primeiras experiências na modalidade de sonho lúcido. Os pesquisadores, americanos e tchecos em parceria, viriam a fazer um estudo de caso deste estranho fenômeno social, resultando alguns anos depois em um ensaio acadêmico chamado “Inferno de Pársena”. A obra assinada pelo diretor geral do departamento que comandava o estudo era impressa em brochura, de couro, e tinha o título em letras cravadas, mais parecendo um romance que um ensaio sociológico. Inclusive no conteúdo – a propósito, o livro realmente existe, apesar de escasso nas livrarias mais modernas, e foi uma fonte essencial para escrever este conto.

A obra foi aceita com sérias ressalvas na comunidade intelectual, principalmente por conta das conclusões delirantes e do estilo literário nada ortodoxo: era uma minuciosa narração dos fatos que, segundo o autor, comprovam a predisposição genética e social para o colapso da civilidade humana. Satisfeitas as aspirações artísticas e literárias do doutor antropólogo, havia algum fundo de verdade ali que impressionou seus colegas de trabalho. Uma breve folheada nas páginas que descrevem a primeira experiência de voo do Mário, batizado de objeto 12 pelo doutor, comprova que ele era de fato um melhor narrador que eu. Tomando emprestada suas palavras, “no parapeito do arranha-céu, um sorriso se esboçou no canto da boca do objeto 12, e tomou conta de todo o lábio à medida que desafiava a gravidade. Não foi de um salto, ou batendo os braços como asas, mas o voo aconteceu como um balão que decola do solo, com um calor fumegante dentro de si, demonstrando que seu músculo do ânimo, afinal, estava atrofiado, mas não morto, cansado, mas não esquecido, pequeno, mas não diminuto”.

Fica claro o porquê desta fase primeira de controle do sonho lúcido ser chamada de “segunda infância” nas páginas explicativas do livreto de Manfredinho, e também no livro do doutor antropólogo. Infância não é uma faixa etária, mas uma situação. Um filhote de humano desconhece a natureza do mundo, em todos os aspectos, e daí floresce o comportamento dito infantil. Não haveria de ser diferente com adultos e idosos em uma outra realidade com tamanho absurdo fantástico que Newton sequer se daria ao trabalho de entender por que as maçãs caem. Talvez exatamente porque elas não precisam cair.

Mário tinha uma lista dos impossíveis que viu, ou sentiu, ou comeu, ou criou, ou os quatro ao mesmo tempo, que matariam Seu Newton de infarto. Parou de contar no enésimo item, quando concluiu prepotentemente que não havia nada em seus sonhos que ele não pudesse criar ou fazer. Começou com os mais simples: o voo, ou andar sobre as águas, ou ainda caminhar gigantemente sobre uma miniatura de cidade com miniaturas de cidadãos. Depois descobriu que podia sentir as benesses de uma bebedeira sem o ônus da ressaca, ou que poderia pegar emprestado o sentimento extático de um vencedor de loteria. Se apercebeu na puberdade quando aprendeu que as secretárias do serviço, ali, eram mais bonitas no seu colo. Descobriu o gosto das mais lindas e desejadas celebridades, e estava bem certo que era quase aquele mesmo.

Aos poucos, o sorriso de canto de boca de Mário ia acontecendo também quando acordado. Já não ousava elaborar críticas a Alfredo Manfredinho, e ousava considerar abandonar a terapia, visto que o trem parecia estar voltando aos trilhos, não importando se tinha ou não rodas. “Doutora, digo em alto e bom tom que estou verdadeiramente agradecido por ter me apresentado esse método, sinto que estou de fato melhorando, o que torna minhas consultas contigo um peso desnecessário para meu bolso, daqui pra frente”, ensaiava o falatório de frente para o espelho, mas este nunca chegando à destinatária por ausência de coragem, ou por faltas às consultas para dormir um pouco mais pela manhã.

 

Capítulo 4 “o purgatório II”: https://tempomanomeu.wordpress.com/2016/08/17/inferno-de-parsena-capitulo-4-o-purgatorio-ii/

Inferno de Pársena – Capítulo 2 – o purgatório

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Semana passada eram zero os pacientes na fila do consultório que estavam com um panfleto ou revistinha com Alfredo na capa. Agora eram três. Das revistas sob a mesa disponíveis para matar o tédio ou os neurônios dos clientes – depende do leitor-, eram zero as que tinha qualquer referência ao guru se não nas páginas publicitárias, na semana passada, mas agora havia no mínimo três menções na página de fofoca.

Talvez esse fenômeno indicasse uma fragilidade ainda maior nessa proposta sonhática. Talvez, pensava Mário, os milagres do dito sonho lúcido não passasse de uma daquelas brisas que chamamos de moda, que vem, refresca por um pouco, trazendo consigo cheiro podre do mar, mas logo passa e o cheiro fica. Talvez fosse como as sandálias de madeira que fizera um estrondoso sucesso anos atrás, mas só deixaram dores lombares de lembrança.

Ou, pior ainda, talvez Mário só estivesse sofrendo da crise de pioneirismo, em que sendo um dos primeiros beneficiados na cidade das propostas de Alfredo Manfredinho, estava agora gerando um ciúme quase romântico pelo método. Bom que a doutora o chamou pelo nome logo nesse estágio da divagação, assim deixava de alimentar esses pensamentos. Não trazia em mãos panfletos nem revistinhas, mas um guardanapo com anotações minuciosas dos horários que dormiu durante a semana:

“Olá, Mário”, cumprimentou a doutora. “Como foi sua semana?”

“Vamos pular essa parte?”, respondeu, com um ânimo contido, mas suficiente para abafar a rudeza da intromissão.

“Funcionou, não?”, deduziu a doutora, sem esconder o sorriso, porque já afirmei que ela é das boas.

O homem respondeu ditando o que havia escrito no guardanapo, e antes que expusesse suas ressalvas céticas quanto ao método, mais para reafirmar seu estigma de apático que para de fato opinar, foi interrompido com um “e agora, Mário?” da terapeuta. E agora, que conseguiu o que queria quando começou a ir às sessões? E agora, que as mãos já não suavam e os olhos pregavam a noite? Danem-se, ainda, as esposas, promoções e o estado de felicidade humana?

O ânimo é um músculo. O exercício lhe fortalece as fibras, dá densidade. Os atletas do ânimo são as crianças, que correm cem metros rasos com a facilidade de uma lebre, saltam com vara e dão um golpe fatal em qualquer tediosa rotina. O coração é outro músculo, e também as crianças compõe essa elite olímpica. O coração sente a decadência com o tempo, os atletas já não suportam os pesos sobre os joelhos. A natureza chama para que voltem ao pó. Mas o ânimo não é esse tipo de músculo: atrofia-se por desleixo, sucumbe por desprezo. Mário tinha seu músculo segundo, o coração, perto da metade do caminho da vida útil,  ainda batia direitinho. Mas o primeiro, já dava como morto, e não cria em ressurreições:

“Não vejo nada a um palmo de distância, na minha vida”, justificava.

“Um burro teimoso”, respondeu a doutora, mudando a voz, em uma anedota que ou parece muito sábia ou muito vergonhosa, “mesmo que faminto, não anda, ainda que receba rios de feno ao final do trajeto. O homem esperto prende uma cenoura e estende a um palmo do burro para que ele sempre tente abocanhar, e assim chegue ao final do trajeto”.

“A senhora me comparou com um burro, doutora”, riu-se Mário.

“Não seja injusto com o bicho: é dele o poder de ir ou não ir”, respondeu com sagacidade.

Mário saiu do consultório sem pensar muito no que ela disse, foi trabalhar sem pensar muito no que ela disse, preparou o jantar sem pensar muito no que ela disse, mas no travesseiro, o pior inimigo das postergações existenciais, pensou no que ela disse. Talvez o sabor do sono deixasse de ser luxo e fosse promovido, ou rebaixado, a cotidiano. Caviar todo dia tem gosto de ovo. Ligou o abajur e puxou de novo a revistinha do criado-mudo – não porque fosse leitura constante, mas porque organização é para os animados. Estava até com a primeira camada invisível de poeira que antecede a visível. Alfredo prometeu bom sono e foi real. Talvez um pouco das outras delícias também fossem.

Acordou, lavou o rosto, pegou o transporte? Mal se lembra, mas estava já no seu escritório. Era um dos genéricos escritórios burocráticos de alguma coisa. Não que seja uma descrição pessimista ou alguma avessão ao sistema capitalista escravocrata, mas o trabalho de Mário é tão irrelevante para a narrativa quanto era para ele. Sentiu a textura da cadeira com a ponta dos dedos, talvez pela primeira vez em anos. Nem lembrava que era de couro. As secretárias estavam de saias mais curtas, mas a explicação mais plausível é que anos de sono – leia-se da falta dele – arrebatam a atenção masculina. Plausível, na verdade, não seria a palavra do dia. Mário ouvia, do seu cubículo, a conversa do odioso chefe ao telefone, do outro lado do corredor. Não tinha esse poder, muito pelo contrário, sempre sofreu com uma leve surdez. Forçou a audição e ouviu as entranhas do homem digerindo o almoço: foi lasanha.

“Não estou acordado!”, constatou consigo mesmo. “Quer dizer, ESTOU acordado. É agora”.

Antes que chegasse a um consenso na questão semântica, de um pulo atravessou o corredor, atravessou a porta sem precisar abri-la, esganou o chefe pelo colarinho com tamanha força que sangrava as mãos e acordou. Dessa vez, de verdade.

“Raios”, falou, para ninguém além de si, na cama, “quem sabe amanhã”.

Lavou o rosto, pegou transporte? Mal se lembra, mas já estava no escritório. Passou os dedos, de leve na cadeira. Era de couro, mas no sonho era mais gostoso.

 

Capítulo 3 “o paraíso”: https://tempomanomeu.wordpress.com/2016/08/08/inferno-de-parsena-capitulo-3-o-paraiso/

Inferno de Pársena – Capítulo 1 – o convite

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Muitas coisas se esperam de um psicólogo quando se paga um quinto do salário para ser tratado da ansiedade crônica e das noites em claro. Uma viagem pelo inconsciente, buscando vestígios de qualquer trauma na infância? Certamente. Comentários pertinentes e também os impertinentes sobre seus vícios e hábitos? Provável. Uma sessão experimental de hipnose, em prol do mais puro diagnóstico do que se passa em uma mente sofrida da classe média neurótica? Não seria má ideia.

Mas aquele panfleto que tinha em mãos era o último dos itens da lista de prescrições socialmente aceitáveis de uma terapeuta. Pelo menos daquela. Graduada e pós-graduada na melhor universidade da cidade vizinha – visto que Pársena não tinha sequer circo de chilenos -, a doutora sempre impôs uma impressão de rigorosidade científica. Qual ciência teria ela visto em Alfredo Manfredinho, para sair distribuindo ao céu e ao léu seus panfletos baratos? A ciência da sedução, provavelmente. O melhor dos psicólogos é que eles estão bem cientes de sua suscetibilidade à condição humana. Podem explicar à exaustão os motivos de sua paixão, reduzir a semânticas técnicas o que convém chamar de emoções, descrever com precisão cirúrgica a previsibilidade da empatia humana, e ainda assim sabem muito bem que continuam apaixonados, como um adolescente idiota. Alfredo Mandredinho era um homem bonito, não tem como negar. E carismático: todo dia aparecia em um novo programa na televisão, fazendo a plateia bater palmas, gritar, chorar, e se apegar tanto a ele que não só ouvisse suas ideias recém-trazidas da Índia como também se tornasse embaixadores do guru.

Guru. É um termo pensado com cuidado. Não que ele usasse um turbante – apesar de ter morado quatro anos em Mumbai – ou se apresentasse com esse título, mas é a forma como os estudiosos das ciências sociais e antropológicas vêm descrevendo esse novo fenômeno nacional. É bem verdade que aquela cidadezinha agora que está ouvindo esse nome com mais interesse, mas já faz algum tempo que a mensagem de Alfredo Manfredinho conquista cada vez mais adeptos no país. Inclusive os próprios estudiosos. Como ela, a doutora psicóloga.

E ela ficava ali, em frente ao divã, pensando milimetricamente em seus gestos e expressões para não escandalizar o paciente, que durante todo esse tempo das minhas divagações não soltou um pio. O panfleto em suas mãos era pobre em todos os sentidos: o papel de jornal, as cores claras que, combinadas, dava um ar esquizofrênico, e até o apelo textual, dizendo que “sua vida pertence a você tome controle dela”, desse jeito mesmo, sem pontuação. E, claro, uma foto do dito cujo, sorrindo, apontando o dedo com um entusiasmo contagiante para o leitor.

O panfleto logo se encharcou com o suor das mãos do paciente, revelando com crueza que até então a terapia não fora de grande valia para controlar sua ansiedade. A doutora sabia bem disso, ela era das boas, por isso que ao entregar o panfleto havia dito “acho que é hora de tentarmos algo novo”, e repetia mais alto agora, de novo, esperando uma resposta do homem no divã. Já estava ficando difícil controlar suas expressões.

“Por que você acha que vai funcionar?”, perguntou o paciente.

“Quanto ao sono, pelo menos, sou a prova viva de que funciona”, respondeu a mulher.

“Qual o propósito disso? Quanto mais vou ter que gastar?”, disse o homem, já desanimado com a perspectiva de ter que mexer novamente no bolso.

“No verso do panfleto há um endereço”, e de fato tinha, escrito à mão, “lá haverá uma palestra às 20h da terça. Não precisa gastar nada, só levar o panfleto e a mente aberta. Você pode voltar a dormir bem, Mário”.

E foi isso. O resto da sessão não nos interessa, nem ao Mário, nem à doutora, pois continuavam se encontrando por pura inércia. Mário era um daqueles sujeitos que vive pra onde o vento sopra, calado e quieto. É difícil achar dessas pessoas, mas tudo que ele queria era dormir bem. Danem-se esposas, promoções ou estado de felicidade humana. Ele queria dormir bem, mas nem remédios ajudavam. Não importava se era um guru de televisão que falava errado de propósito, não importava se era ridículo, não importava se todos os amavam ou odiavam, se ir em uma palestra do homem o ajudasse a dormir bem, ele iria.

Existem certos momentos em nossas vidas em que lemos um texto, ou ouvimos um sermão, quiçá uma bronca da genitora, que nos coloca diante de uma encruzilhada. Não é como se fossemos construir nossos caminhos, mas como se tivéssemos pleno conhecimento das diversas possibilidades do nosso fim. E o texto, ou sermão, ou quiçá bronca da genitora, são a placa, que indicam as várias direções que podemos tomar. E a mudança de rota torna-se inevitável, e a placa, uma memória saudosa.

Aquela palestra de Alfredo Manfredinho, a primeira na cidade, se tornou um desses momentos para a mulher que estava sentada ao lado de Mário. E também para o jovem do seu outro lado, e igualmente para o senhor à sua frente. O nome desse senhor era Ernesto, e nem era preciso ser íntimo para perceber seu susto quando informado, pelo guru, que passava um terço de sua vida dormindo – agora fazia sentido como sua juventude fora sugada violentamente diante dos seus olhos -, e sua expressão de esperança ao ouvir do método proposto que otimizaria o pouco tempo que lhe resta de vida:

“Tantas pessoas sofrem de pesadelo, tantas pessoas sonham e não lembram, tantas pessoas sequer dormem”, dizia o famigerado palestrante. “E se eu te dissesse que seu sono é mais importante do que dizem? E se eu te dissesse que é possível se manter consciente em seus sonhos? E se eu te disse que em seus sonhos você pode fazer o que bem entender?”

O nome da mulher ao lado de Mário era Betânia, e ela não parava de balançar afirmativamente a cabeça por um segundo sequer durante a palestra, conquistada pela ideia de que não era preciso se sujeitar às exigências do mundo, à uma promoção, à um marido ou quem quer que fosse para que seus sonhos se tornassem realidade, mas que ela mesma tinha esse poder de “transformar sua realidade pelos sonhos”, dizia Alfredo, com veemência. “Você não sabe o poder que tem, não sabe quão maior é a vida”.

O jovem do outro lado de Mário preencheu a ficha de inscrição da palestra com o nome falso de Ruppert, mas logo trocaria pelo verdadeiro, Emiraldo, porque estava ansioso para receber por correio qualquer atualização que o instruísse nesse novo e promissor hábito onírico. Ao final, todos gritaram em coro, “eu sou dono de mim mesmo”. Todos exceto Mário e um homem que era mudo. Mário saiu o quanto antes do estabelecimento que acolhia aquela tempestade de excitação, escondeu o kit instrutivo que recebera debaixo dos braços e fechou os olhos enquanto andava, na esperança de que assim fosse chegar logo em casa. Não foi por fechar os olhos, mas logo estava em casa, que era a um quarteirão dali. Aconchegou-se na cama e se apressou em colocar em prática a tal promessa de dormir bem.

A revistinha que recebera possuía o título de “sonho lúcido: viva mais e mais intensamente”. Pulou o prefácio, pulou a introdução, pulou as páginas cheias de comprovações científicas claramente duvidosas que endossavam os benefícios fisiológicos, psicológicos e sociais do método, e foi logo para a seção que o interessava: o método. Sem eufemismos e com uma surpreendente sobriedade, o manual ensinava que era necessária dedicação e persistência para chegar ao objetivo. Essa foi a décima primeira frustração contada por Mário desde que recebeu o panfleto da doutora, mas já estava longe demais para desistir.

Eram várias gravuras ilustrativas com textos curtos dando o passo a passo de como entrar em sono profundo, depois, de como estar consciente no próprio sonho, e enfim, de como aproveitar ao máximo esse novo poder por tanto tempo desprezado por você. Ao nosso protagonista só importava a primeira etapa, e passou-se o primeiro dia, o segundo e o terceiro, e nada do sono profundo. As técnicas de respiração e as repetições mentais executadas com o maior zelo tinham se mostrado ineficazes, e como último recurso, Mário abriu uma embalagem com pílulas azuis que veio com o kit. “Em último caso”, advertia a embalagem, que garantia a eficácia do produto.

Não conte para ninguém, mas as pílulas eram puro açúcar, e ele sabia bem disso. Mas o mais cético dos céticos cede quando o desespero bate à porta, e uma luta sangrenta da vontade contra a razão se travou em Mário, com vitória da primeira. Fato é que a despeito do sensacionalismo barato do charmoso guru, dormiu. Acordou com a boca aberta, tamanho o relaxamento, e manteve a boca a aberta, tamanha a surpresa.

 

Capítulo 2 “o purgatório”: https://tempomanomeu.wordpress.com/2016/04/23/inferno-de-parsena-capitulo-2-o-purgatorio/